Viajar é sempre uma renovação: esvaziar a cabeça, diminuir o ritmo, entregar-se a novas experiências, ver sob um novo olhar, prestar atenção a detalhes que nos passam despercebidos na correria do dia a dia.

Para mim, sem dúvida foram as viagens o fator mais importante da minha formação como pessoa, como artista e amante das artes e como arquiteta.

Dou-me conta de que, no cotidiano, estamos constantemente e literalmente correndo atrás do tempo, sempre atrasados. A vida na metrópole nos consome em compromissos sociais, profissionais, familiares. O dia precisaria ter não 24 horas, mas 48, e cada milésimo de segundo precisa ser aproveitado, pois não podemos perder tempo.

Provavelmente a nova geração nem entenda o que estou dizendo, mas a globalização, o avanço na tecnologia e na comunicação nos levaram a um patamar completamente diferente do que já havíamos vivido, e o pior é que estamos envolvidos nessa bola de neve e nem nos damos conta do tamanho, das proporções e suas consequências.

A tecnologia permite que nos comuniquemos com uma ou mais pessoas a qualquer hora do dia, em todas as horas durante o ano todo, em qualquer parte do mundo. Por um lado, isso é maravilhoso: podemos falar com uma amiga que mora fora, viajar a trabalho e falar com os filhos por Facetime, fazer reuniões durante as férias…. Tenho que admitir que, por um lado, facilitou muito a vida, se compararmos não a 100 mas a 40 anos atrás, quando nem todos tinham telefone em casa e era preciso uma telefonista para completar as ligações.

Hoje em dia, quase todos têm um ou mais celulares com múltiplos chips, linhas, operadoras, bônus etc. As pessoas passam o dia inteiro com o celular a tiracolo, pois não podem perder uma mensagem, uma ligação, um post no Facebook ou no Instagram.

A consequência é que nos tornamos reféns da tecnologia e da rede de comunicação. Como estamos de fato sempre disponíveis, as pessoas esperam que todas as outras também estejam, não somente no horário comercial, mas em todas as 24 horas do dia. Não existem mais fim de semana, férias.

Sentar para comer com calma, descansar, relaxar são considerados perda de tempo. Estamos constantemente checando e-mails e mensagens no celular, os almoços são aproveitados para reuniões.

Isso tem um preço que quase todos pagamos, chamado estresse. Quantas vezes me pego respirando fundo e ofegante no meio do dia ao olhar minha agenda lotada de compromissos e ainda tenho que encaixar um médico ou algum compromisso pessoal; ou no domingo à noite, quando tenho que montar a agenda mas a quantidade de compromissos da semana daria quórum para um mês inteiro…

Para mim, a única forma de aguentar essa rotina de ritmo absurdo e velocidade a milhão é recarregando as baterias de tempos em tempos: férias. Mas não quaisquer férias. Preciso sair da minha rotina, do meu espaço; poder me desligar por completo de tudo e entrar em contato comigo mesma.

Normalmente, demoro um pouco para conseguir esvaziar a cabeça. Mas sempre esvazio e cada dia vou esvaziando mais e consigo olhar as coisas com calma, com um olhar como se fosse a primeira vez que visse as coisas mais simples do cotidiano. Olho prestando atenção, atentando aos detalhes. Consigo ouvir os sons da natureza ou da cidade, sentir os aromas que me cercam, sentir o paladar da comida e apreciar as refeições com calma.

E é nesse estado de calma e bem-estar que entro no auge de meu processo criativo: meu poder de absorção aumenta um milhão por cento, já que meus sentidos estão apuradíssimos e livres como um radar à procura de estímulos visuais, sensoriais.

As informações me nutrem e ficam armazenadas em meu inconsciente, prontas para serem resgatadas a qualquer momento. Referências vistas e experiências vividas voltam em forma de ideias novas e inovadoras.

Não foi à toa que, na Sala Multiúso da Casa Cor 2011, utilizei parede e teto de azulejo apenas três meses após ter voltado de uma viagem a Portugal. Mas, em vez de ser em estilo colonial português, foi de uma maneira arrojada e moderna, trazendo personalidade ao ambiente.

Para mim, Carla pessoa, arquiteta e mãe, é essencial tirar férias. Duas semanas normalmente são o suficiente para me dar energia para mais um ano e ficar planejando meu próximo destino.

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